Eu aceito não ser boa com números, contanto que seja muito boa com letras. Não existe um parâmetro que me defina como boa ou ruim nisso, então, permaneço do jeito que estou.
Sempre gostei muito de dicionários, não é a toa que criei esse blog inspirado na minha paixão por eles. Quis criar o MEU dicionário com as minhas definições porque nossas palavras são decodificadas pelos olhos e boca fala do chão que pisa - é bem subjetivo mesmo.
Antes de nascer esse diário de grifos como um novo conceito de dicionário ( ha ha ha, eu artista), eu tinha o costume de enviar sms para certos amigos com conceitos bem contextualizados. Eu pegava uma palavra chave e dava o significado dela conforme o contexto em que a palavra se encaixava na minha relação com aquela pessoa. E deu certo, consegui risos e suspiros.
Minha relação com a definição das coisas é bem bacana, embora existam alguns paradoxos sobre os quais falarei aqui nesse post. Tenho uma lista de coisas que não consigo definir. Essas "coisas" geralmente tem uma definição rapidamente difundida por todos de forma que é bastante modificada todos os dias. Eu inclusive sou a favor do tombamento de determinados conceitos, um museu para todas as palavras, um lugar escondido para o significado delas, uma ordem maior de respeito a ideia central.
Mas essa ideia minha não passa do fruto da cabeça de uma pessoa com medos.
Não sei que tipo de arte meu inconsciente faz, mas eu não consigo conceber plena e suficientemente o que são determinadas coisas. Tudo que consigo fazer é senti-las, como alguém que nunca sentiu antes toda vez que elas resolvem aparecer. O fato de essas coisas serem normalmente tidas como sentimentos, não me ajuda muito, pelo contrário, me confunde. Que tipo de coisa/sentimento é a saudade, por exemplo? É representada por um nome que só existe na língua portuguesa, uma etimologia discutida sem consenso. Uma amálgama de sentimentos?
Amor é outra palavra que rouba as minhas horas tardes afora.
Finalmente, talvez não seja um problema de dicionário, seja um problema de auto definição. Ou talvez seja um problema de dicionário, talvez as coisas não são como eles dizem, talvez todas as pessoas devessem criar seus dicionários e carregá-los dentro do peito, o mais perto possível de suas experiências pra antes de dizê-las, senti-las. Falamos muito e sentimos pouco. Fazemos muito barulho e não há espaço para o sentimento das definições. Há uma necessidade exacerbada de preencher espaços com definições, com certezas, que no final das contas acabam sendo incertas.
Para dar fim ao meu discurso, trago uma frase do livro O Banquete, de Platão, que expressaria o que deveríamos sentir depois de ouvirmos o silêncio das definições:
"Como, ó homem feliz, como não me sentiria inibido e embaraçado, eu, ou qualquer outro que tivesse que falar depois de um discurso tão elegante e tão rico? [...] Reconheço-me completamente incapaz de dizer qualquer coisa que, mesmo de longe, se aproxime de tanta beleza, e já teria desaparecido daqui, envergonhado, se fosse possível."
Hoje, sem nenhum vocábulo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário